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Folha Paroquial nº 59 *Ano II* 6.1.2019 — DOMINGO DA EPIFANIA DO SENHOR

«Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.»

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«EVANGELHO (Mt 2, 1-12)
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.»

Todos se reúnem e vêm ao teu encontro
Os profetas do Antigo Testamento foram essenciais para que um povo tão pequeno como Israel pudesse ao longo da história manter viva a sua esperança de povo messiânico e nunca desistir da terra que Deus lhe deu em herança. Os profetas eram homens de visão que iluminados pela fé e pelas promessas de Deus sabiam ler o presente e projetar-se no futuro. Vede como é bela a profecia de Isaías na 1ª leitura de hoje! Israel tinha acabado o seu exílio na Babilónia e ainda estava bem marcado pelo sofrimento e o desânimo, até porque o regresso foi uma desolação. Encontraram um país pobre e devastado e faltava o ânimo para começar a erguer a cidade e o país. Apesar disso sempre era melhor que estar exilado na Babilónia e o profeta lembra-lhes que ainda há pouco tempo a cidade estava vazia e em completa ruína num quadro de noite e de escuridão, mas agora uma luz de esperança se levanta sobre ela. E o profeta anuncia a chegada de uma luz salvadora «Sobre ti levanta-se o Senhor» E assim todos os que esperam a salvação de Deus virão a Jerusalém e inundá-la-ão de alegria e riquezas cantando os louvores de Deus.
Ontem como hoje, qualquer pessoa ou povo precisa de ter esperança e ter metas a alcançar para lutar. O livro dos Provérbios diz que “sem profecia o povo vive na corrupção” (proverbios29,18), mas outra tradução diz: «Sem visão o povo vive desorientado» o que quer dizer a mesma coisa. Por isso a promessa do profeta Joel para os tempos messiânicos é que «Naqueles dias os vossos filhos e filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (Joel 3,1)
Para muitos cristãos a situação da Igreja no Ocidente, retratada em muitas das nossas paróquias pode parecer também desanimadora. Há decréscimo do número de praticantes, há menos crianças na catequese e estas vão desaparecendo a partir do 3º ano da catequese e cada vez as referências da fé parecem estar mais ocultas da vida social e familiar. Vivemos numa cultura que não respeita a vida e se vai afastando cada vez mais das referências do evangelho inclusivamente nas famílias que se dizem cristãs. Mas nada está perdido; a Igreja já passou por estas situações mais vezes na sua história. Os homens e mulheres de hoje continuam a ter sede de Deus e de verdade pois “foram criados por Ele o seu coração vive inquieto enquanto não o encontra.” Então o que precisamos ? De sonho e de visão. A visão é um sonho que produz paixão em nós pois vemos no presente o que será o futuro. É uma imagem do futuro que vemos antecipadamente. E de onde vem essa imagem? Vem de Deus quando a pedimos em conjunto. Senhor o que queres de nós? Para onde devemos concentrar o nosso olhar no futuro? A escuta dos destinatários da nossa missão e a escuta da voz de Deus através da Igreja, ajuda-nos a encontrar essa imagem do futuro à qual deveremos ser fieis até que se realize.
Mas ela não se realiza por si, é preciso que se trabalhe muito e seja cada vez maior o número dos que se envolvem na realização da profecia ou da visão.
O texto dos Magos hoje mostra-nos que os príncipes dos sacerdotes, os escribas do povo e o próprio povo de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias e dão essa informação a Herodes: “Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Apesar de saberem isso tudo, não mexeram um pé para irem ao seu encontro e a luz da salvação brilhou para os que O procuraram e adoraram humildemente e deixou na escuridão aqueles que sabiam tudo acerca d’Ele. Não chega saber e pertencer ao grupo dos que sabem. É necessário mexer-se e ir ao seu encontro.
Há extintores do sonho e da visão tais como: “Nunca fizemos isso”, preconceitos, fadiga, pensamento a curto prazo.
Os magos são homens de visão e de sonho. Desde que souberam ler nos astros um sinal, puseram-se a caminho guiados pela estrela da esperança e não desanimaram até que chegaram à realização da promessa que mudou as suas vidas.
Eu pessoalmente vejo as paróquias de S. José e S. João Baptista com grande esperança de futuro. Vejo–as a viver a comunhão fraterna na vivência do mandamento novo, acolhendo a todos com amor e alegrando-se com os novos que chegam, vejo os irmãos a crescerem na identificação com Cristo através de muitos pequenos grupos onde cada um é escutado e amado e onde todos podem ter voz e serem acolhidos não como números mas como pessoas. Vejo uma comunidade fiel à Eucaristia dominical que vai para ela como se fosse para uma festa, uma comunidade fiel ao serviço dos irmãos com uma grande capacidade de partilha com os mais pobres. Vejo crianças felizes por conhecerem a Deus e famílias que são oásis de vida e de amor num mundo de cultura de morte. Vejo uma comunidade que resplandece e que atrai aqueles que se sentem insatisfeitos com o vazio e a escuridão do mundo e que procuram sentido para a existência. Vejo uma comunidade comprometida com a paz e a justiça e dela brota gente com um espírito novo para o serviço nas diversas áreas da construção de um mundo mais justo. Vejo jovens que comprometidos com a sua fé seguem a Cristo segundo diferentes vocações onde alguns vão para o sacerdócio e vida consagrada. Porque não havemos de poder profetizar tempos novos? Deus diz em Jeremias 29, 11: “Eu conheço bem os desígnios que tenho acerca de vós, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro de esperança – oráculo do Senhor.”

Folha Paroquial nº 58 *Ano II* 30.12.2018 — SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

«Ditosos os que temem o Senhor,
ditosos os que seguem os seus caminhos.»

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«EVANGELHO (Lc 2, 41-52)
Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados; e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.»

Hoje é o dia da família cristã: uma festa estabelecida por Paulo VI para que nós, cristãos, celebremos e aprofundemos o que pode ser um projeto familiar entendido e vivido a partir da fé em Jesus: Sim, porque a fé cristã, se é verdadeira, molda toda a nossa existência. É uma grande contradição ter fé e viver em desacordo com os ensinamentos do evangelho. Infelizmente não fomos capazes de transmitir às novas gerações o que é a graça de constituir uma família enraizada em Cristo e a viver no Senhor a vida familiar.
Este dia da família está ligado ao Natal. Que se passou no Natal? «O verbo fez-se carne». E o que quer isso dizer? Não quer dizer somente que Deus assumiu um corpo de homem. Mais do que isso, Ele assumiu também a nossa inteligência, a nossa vontade, a nossa sensibilidade. E hoje, na festa da Sagrada família, é-nos dito que Ele quis também viver e crescer numa família. Ele assumiu a encarnação em tudo. Aprendeu a falar, apesar de ser o Verbo de Deus, a palavra feita carne, aprendeu tudo. Ele poderia ganhar tempo sem isso tudo. O verbo de Deus que se fez carne é também o Verbo de Deus que se torna presente na família. É o Emanuel presente na família. É Jesus que salva que está na família também para a salvar.
Deus está presente no coração das famílias e no centro das relações familiares. E isto não é de espantar pois Ele é o Deus trinitário. E a família é como uma imagem sobre a terra da Trindade. Na família as pessoas são diferentes umas das outras, às vezes até fazemos a experiência disso de uma forma dolorosa: em certos momentos dizemos que esta diversidade é uma riqueza, mas há outros momentos em que não é nada fácil o que temos de suportar, o peso da diferença. Mas as pessoas da família são chamadas a viver na comunhão, na unidade com todas essas diferenças que são enriquecedoras. Há muitos textos do Novo Testamento que evocam esse convite à comunhão e caridade e a segunda leitura de hoje é um bom exemplo.
Um modo muito preciso de honrar esta presença de Deus na família, é a oração. Jesus diz-nos: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles.” Então pensai nestas palavras quando estais em vossa casa. A família é uma igreja pequenina onde o Evangelho deve ser anunciado, celebrado e vivido. Madre Teresa de Calcutá, agora Santa Teresa dizia: «Transmite a oração à tua família, transmite-a aos teus filhos, ensina-os a rezar porque uma criança que reza é uma criança feliz, uma família que reza é uma família unida.»
Hoje mesmo os pais cristãos dão uma muito pequena importância à formação cristã dos filhos e privam-nos, a meu ver, do mais importante. Querem dar-lhes tudo o que os possa ajudar no futuro a terem um bom curso, mas dão pouca importância ao que pode ajudá-los a serem pessoas mais felizes. Viver a fé em família, levar os filhos à catequese e acompanhar esses momentos devia ser importante para os pais. Vemos que Maria e José têm cuidado em cumprir as prescrições da lei e de cumprir a vontade de Deus que lhes é manifestada e vão ao Templo para apresentar o Menino como mandava a lei do Senhor. É a forma de reconhecer que o seu filho não lhe pertence.
Apesar de a família de sangue ser muito importante para a felicidade de qualquer pessoa que venha a este mundo, também o foi para Jesus; no entanto, para Jesus a família não é o fim, algo de absoluto e intocável. Ela é um meio para nos preparar a construir a família humana. Por isso, o decisivo não é a família de sangue, mas a grande família que todos nós seres humanos havemos de ir construindo escutando o desejo do único Pai de todos. Inclusivamente os seus pais o terão que aprender, não sem problemas e conflitos, como nos revela o texto de hoje.
Segundo o relato de Lucas, os pais de Jesus procuram-no angustiados, ao descobrir que os abandonou sem parecer preocupar-se com eles. «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Jesus surpreende-os com uma resposta inesperada: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Só aprofundando as suas palavras e o seu comportamento em relação à sua família, descobrirão progressivamente que, para Jesus, o que está em primeiro é a família humana para que seja mais fraterna, justa e solidária, tal como Deus a quer. Esta primazia não tira, porém, nenhuma importância ao valor da família de sangue e de afetos. É que se esta não funcionar bem, se não formos amados e não aprendermos aí a amar, não teremos o coração largo capaz de amar cada homem e cada mulher do nosso mundo. Ninguém é capaz de amar se antes não foi amado. Por isso a família de sangue não sendo o fim é realmente muito importante na construção da pessoa para que esta se dê à sociedade de uma forma generosa e construtiva.
Não podemos celebrar responsavelmente a festa de hoje sem escutar o desafio da nossa fé:
Como é a minha família? Vive comprometida com a Igreja e com uma sociedade melhor e mais humana, ou encerrada exclusivamente nos seus próprios interesses? Na minha família educa-se para a solidariedade, a construção da paz, para a sensibilidade aos mais necessitados, para a compaixão, ou ensinamos a viver para o bem-estar insaciável, o máximo lucro e o esquecimento dos outros?
O que está a acontecer nos nossos lares? Cuida-se da fé, lembramo-nos de Jesus Cristo, aprende-se a rezar, ou só se transmite indiferença, incredulidade e vazio de Deus? Educa-se para viver a partir de uma consciência moral responsável, sã coerente com a fé cristã, ou favorece-se um estilo de vida superficial, sem metas nem ideais, sem critérios nem sentido último?
Queira Deus fazer crescer em nós o sentido da família cristã e a sermos todos construtores de famílias felizes.

Folha Paroquial nº 57 *Ano II* 23.12.2018 — IV DOMINGO DO ADVENTO

«Senhor, nosso Deus, fazei-nos voltar, mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos.»

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«EVANGELHO (Lc 1, 39-45)
Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».»

Ele será a paz
Às vezes certas afirmações bíblicas, sendo bonitas, podem parecer a alguns mais manifestação de um desejo do que realidade alcançada. Uma delas é a de que o Messias trará a paz ao mundo. Os anjos na noite de natal cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”. A primeira leitura de hoje do profeta Miqueias afirma que nos tempos do Messias “viver-se-á em segurança porque Ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz.” O profeta Isaías profetizava que no seu tempo “o cordeiro e o leão pastarão juntos, o menino porá a mão no ninho da cobra sem que esta lhe faça mal.” Nesse tempo “as espadas serão transformadas em relhas de arado e as setas em foices”. “Florescerá a justiça nos seus dias e uma grande paz até ao fim dos tempos.”
S. Paulo, na carta aos Efésios, afirma o seguinte: “Em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe, agora, estais perto, pelo sangue de Cristo. Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando assim a inimizade. E, na sua vinda, anunciou a paz a vós que estáveis longe e paz àqueles que estavam perto. O muro da inimizade era uma barreira física que separava, no templo de Jerusalém, o pátio dos gentios, onde todos podiam entrar, da zona onde só os judeus podiam entrar. Era proibidíssimo sob pena de morte que um não judeu ou incircunciso pudesse entrar nessa zona exclusiva do povo da Aliança. Mas Jesus, pela sua morte e ressurreição, criou em si próprio um só povo destruindo o muro da inimizade que os separava. Agora todos somos membros da mesma família e já ninguém é estrangeiro ou emigrante. Para falar desta unidade e dignidade em Cristo Paulo afirma também: Já não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. Todas as barreiras de separação entres os seres humanos caíram. E isso realizou-se pela oferta de Jesus na cruz. Por isso, S. João, que vê com olhos de águia, afirma-nos que no momento em que Jesus morreu na cruz o “véu do templo rasgou-se de alto a baixo”. O véu do templo era uma cortina que separava o Santo dos santos, o coração do santuário, onde só o sumo sacerdote entrava uma vez ao ano, do resto do templo onde o povo se situava. O rasgar-do véu do Templo significa que agora, em Cristo, no seu corpo morto e ressuscitado, temos todos acesso a Deus num só Espírito. Já não precisamos de mediadores pois um só é o Mediador, Jesus Cristo. E talvez agora compreendamos melhor a segunda leitura de hoje: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’»
A vontade de Deus era que através da incarnação de Jesus, no seu Corpo de carne, o culto antigo que dividia os homens fosse abolido e surgisse um culto novo, que não é baseado em oblações de animais nem outras prescrições rituais mas na oferta de Cristo que na sua carne nos reconcilia com Deus e uns com os outros estabelecendo a paz. A paz é pois um dom que vem de Deus por Jesus, pois Ele fez cair os muros da divisão entre o homem e Deus e uns com os outros emas agora é uma tarefa que todos os que crêem em Cristo e todos os homens de boa vontade devem tentar construir, criando um mundo de compreensão, compaixão, solidariedade, caridade, união. Devemos deitar abaixo todos os muros físicos e psicológicos que nos dividem e dar as mãos uns aos outros. Ele será a nossa paz se o deixarmos entrar no mundo através do nosso coração e das nossas decisões quotidianas.

Folha Paroquial nº 56 *Ano II* 16.12.2018 — III DOMINGO DO ADVENTO

«Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.»

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«EVANGELHO (Lc 3, 10-18)
Naquele tempo, as multidões perguntavam a João Baptista: «Que devemos fazer?». Ele respondia-lhes: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo». Vieram também alguns publicanos para serem baptizados e disseram: «Mestre, que devemos fazer?». João respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos foi prescrito». Perguntavam-lhe também os soldados: «E nós, que devemos fazer?». Ele respondeu-lhes: «Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo». Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, ele tomou a palavra e disse a todos: «Eu baptizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga». Assim, com estas e muitas»

MEDITAÇÃO
A pergunta, «que devemos fazer?» é uma pergunta espontânea que aparece na boca daqueles que se deixaram «tocar» interiormente pela Palavra de Deus: Encontramos essa pergunta escrita pela pena do mesmo evangelista S. Lucas, mas agora no livro dos Atos dos Apóstolos. Os habitantes de Jerusalém e de várias regiões do mundo então conhecido que ali estavam reunidas no dia de Pentecostes, ao ouvirem a pregação de Pedro sobre o acontecimento Jesus, a sua vida, morte e ressurreição e o significado de tudo isso para nós, ficaram de coração trespassado e perguntaram: «Então que devemos fazer, irmãos» E Pedro respondeu: Convertei-vos e peça cada um de vós o batismo para remissão dos vossos pecados. Recebereis então o Espírito Santo e, com Ele, uma Vida Nova.»
Agora, depois de ouvir a pregação de João Baptista, também o povo tocado no seu coração pelas suas palavras, lança a mesma pergunta: «Que devemos fazer»? Esta questão é incontornável para quem se encontra com Jesus e fica tocado interiormente pela sua Palavra salvadora fruto da ação do Espírito Santo. A conversão acontece quando a Palavra de Deus anunciada, tocando o mais profundo da nossa alma como que produz uma ferida de amor no nosso coração, nos emociona, e percebemos que é Deus com o seu toque suava e pela força do seu Espírito que está a agir em nós. A partir deste “encontro” a pergunta sobre «como devemos viver» virá mais cedo ou mais tarde. E se não vier é porque não houve verdadeiro encontro. Não é possível encontrarmo-nos profundamente com Cristo e não mudar nada na nossa vida. O encontro com a Luz gloriosa que é Jesus ajuda-nos sempre a ver a noite e as trevas que pairam na nossa vida e a desejar viver de outra maneira. É um novo rumo, uma nova orientação, uma nova felicidade. O encontro com Jesus gera também compromisso com o bem dos outros e do mundo à nossa volta. Não é possível ter uma relação com Jesus e viver isolado e desinteressado dos homens e mulheres que vivem à nossa volta.
No texto de hoje o que provoca a pergunta é a palavra de João Baptista e a sua pregação emocionante da proximidade do reino de Deus. Deus é fiel e aquilo que prometera está a cumpri-lo na vinda do Messias. Ele está à porta e João Batista nem se sente digno de desatar a correia das suas sandálias. Ele só batiza em água mas o que Ele anuncia batiza no Espírito Santo e no fogo do amor de Deus. É essa a promessa que Pedro dá nos Atos dos Apóstolos a quem faz a promessa: «Recebereis então o Espírito Santo»
Diante desta notícia os corações ficam tocados e o desejo de acolher o Messias cresce; daí a pergunta: “O que devemos fazer?”
João Baptista propõe três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor que vem: ao povo em geral, João Baptista recomenda a sensibilidade às necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens; aos publicanos, pede que não explorem, que não se deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem ilegalmente os mais pobres; aos soldados, pede que não usem de violência, que não abusem do seu poder contra fracos e indefesos. Repare-se como João Baptista põe em relevo o pecado contra o amor: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um pecado contra Deus. Quem o comete, está a fechar o seu coração e a sua vida à proposta de Cristo.

Folha Paroquial nº 55 *Ano II* 9.12.2018 — II DOMINGO DO ADVENTO

«O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.»

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«EVANGELHO (Lc 3, 1-6)
No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide e Lisânias tetrarca de Abilene, no pontificado de Anás e Caifás, foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. E ele percorreu toda a zona do rio Jordão, pregando um baptismo de penitência para a remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus’».»

MEDITAÇÃO
ABRIR CAMINHOS NOVOS
Os primeiros cristãos viram na atuação de João Baptista o profeta que preparou decisivamente o caminho para Jesus. Por isso, ao longo dos séculos, as palavras do Baptista converteram-se num apelo urgente a preparar os caminhos que nos permitem acolher a Jesus entre nós. Ele é por isso chamado o precursor do Senhor.
S. Lucas resumiu a sua mensagem com este grito tirado do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor”. Como escutar este grito na Igreja hoje? Como abrir caminhos para que os homens e as mulheres do nosso tempo possam encontrar-se com Ele? Como acolhê-lo nas nossas comunidades? Estas são perguntas fundamentais a que a Igreja tenta dar resposta.
A primeira coisa de que a Igreja se vem consciencializando já desde o Concílio Vaticano II é a de que precisamos de um contacto mais vivo com a pessoa de Jesus. Não é possível aos cristãos alimentarem-se só de doutrina religiosa. Ninguém pode seguir um Jesus abstrato. Precisamos de sintonizar vitalmente com Ele, deixar-nos atrair pelo seu estilo de vida, contagiar-nos pela sua paixão por Deus e pelo ser humano.
No meio do “deserto espiritual” da sociedade moderna, a comunidade cristã deve ser o lugar de acolhimento do Evangelho de Jesus. É nela que nos reunimos como crentes com mais ou menos fé, para escutar os relatos do Seu Evangelho. Acolhendo-os com fé damos-Lhe a Ele a oportunidade de penetrar com a sua força humanizadora os nossos problemas, crises, medos e esperanças. E saímos do encontro mais fortalecidos, mais libertos.
Não podemos esquecer, nos evangelhos não aprendemos a doutrina académica sobre Jesus, destinada a envelhecer ao longo dos séculos. Na Eucaristia em que nos reunimos para estar com Ele e escutar o seu evangelho também não se trata de aprender doutrina. Trata-se de estar com Ele e deixar-nos tocar pela sua graça. Trata-se de continuamente reaprendermos um estilo de viver realizável em todos os tempos e em todas as culturas: O estilo de vida de Jesus. A doutrina não toca o coração, não converte nem enamora. Jesus sim.
Tenho-me encontrado no fim da missa, à semana, com um «buscador da fé” que nos inspira muita simpatia. Não é batizado mas tem uma grande sede espiritual. Já leu muita coisa sobre varias religiões orientais e sobre o islão mas como nasceu num país de tradição cultural cristã é aí que alimenta a sua busca. Nunca se fez catecúmeno para ser batizado porque teme que o queiram dogmatizar ou encurralar num caminho único. Como anunciar o Evangelho a alguém que deseja permanecer neutro em relação a todas as religiões? A questão é que temos estado no nível das ideias…e foi quando percebi isso que lhe perguntei: «Já leste alguma vez os evangelhos de Jesus?» «Ainda não, respondeu». Então ofereci-lhe a Bíblia inteira e disse-lhe: Lê o evangelho de S. Marcos e depois de o leres voltamos a conversar.
Sem nos encontramos com a pessoa de Jesus ficamos nas ideias…e as ideias não nos convertem. É o encontro com Ele que nos faz deixar de ser neutros e fazermos a opção de um caminho. O caminho de Jesus que para nós é o caminho da salvação pois “não existe outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos?” Como diz José Pagola, “a experiência direta e imediata com o relato evangélico faz-nos nascer para uma nova fé, não por via do “endoutrinamento” ou da “aprendizagem teórica”, mas pelo contacto vital com Jesus. Ele ensina-nos a viver a fé não por obrigação, mas por atração. Faz-nos viver a vida crista não como dever, mas como contágio. No contacto com o Evangelho recuperamos a nossa verdadeira identidade de seguidores de Jesus. O segredo de toda a evangelização consiste em pôr-nos em contacto direto e imediato com Jesus. Sem Ele não é possível engendrar uma nova fé.”
O percurso Alpha é isto mesmo. Pôr as pessoas em contacto com a pessoa de Jesus e por isso serve para não crentes e para crentes de há muitos anos que podem ter sido endoutrinados, sacramentalizados mas porventura faltou o encontro vital com Jesus que faz surgir uma nova maneira de crer e de viver.

Oração
“Senhor Jesus, neste Natal
Te pedimos a Graça de preparar os nossos corações
De sarar as nossas feridas, de preencher o vazio
Que sentimos quando estamos longe de Ti!
Aumentai em nós a fé, a esperança e caridade
Preparai os caminhos das nossas familias
Concede-nos a humildade de pedir perdão e o dom da reconciliação
Fazei dos nossos lares a gruta de Belém, cheia de harmonia e paz
Preparai os caminhos da nossa Igreja
Que ela seja testemunho da tua alegria, do teu entusiasmo e da tua entrega
Enchei-a de dinamismo missionário
Promovei Senhor, nós te pedimos, uma profunda comunhão
Entre todos os membros
Preparai os caminhos do mundo
Suscitai líderes com coragem de lutar pela verdade,
Pela justiça e pelo amor
Defendei os pobres, os doentes, os marginalizados
E visitai a todos neste Natal, com o dom do Vosso Amor
Amén.”

Folha Paroquial nº 54*Ano II* 2.12.2018 — I DOMINGO DO ADVENTO

«Para Vós, Senhor, elevo a minha alma.»

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«EVANGELHO (Lc 21, 25-28.34-36)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».»

MEDITAÇÃO
Começámos o novo ano litúrgico com o 1º Domingo do Advento. Os prefácios das missas do Advento situam-nos nas três dimensões do devir temporal em que o Advento nos coloca: Passado, presente e futuro. Passado: Fazemos memória-atualização da esperança que animou o Povo de Israel durante séculos preparando-se para a vinda do Messias. Diz o prefácio: “Foi Ele que os Profetas anunciaram, a Virgem Mãe esperou com inefável amor, João Baptista proclamou estar para vir e mostrou já presente no meio dos homens.”
Mas o Advento vive-se no concreto do hoje da nossa história, o Presente: Por isso acrescenta a oração da Igreja: “Agora, Ele vem ao nosso encontro, em cada homem e em cada tempo, para que O recebamos na fé e na caridade e dêmos testemunho da gloriosa esperança do seu reino. É Ele que nos dá ( hoje) a graça de nos preparamos com alegria para o mistério do seu nascimento.” Vivendo com Ele na história como Emanuel, Deus connosco, não deixa de nos projetar no futuro onde aguardamos os novos céus e a nova terra. Por isso a oração continua apontando para o futuro; “Pai Santo, Vós nos escondestes o dia e a hora em que Jesus Cristo, vosso Filho, Senhor e juiz da história, aparecerá sobre as nuvens do céu revestido de poder e majestade. Nesse dia tremendo e glorioso, passará o mundo presente e aparecerão os novos céus e a nova terra.” Por isso a atitude do Advento é a da sentinela vigilante e o verbo mais repetido é; “Vigiai”.
Sejamos práticos: O que fazer neste advento para não ficar só nuns bons pensamentos e propósitos: Sugestões: Reunir-se com um pequeno grupo de mais de 3 pessoas para fazer a lectio divina que a Diocese propõe para cada Advento ou fazê-la em família se for difícil reunir com um grupo. Sugestão ainda mais simples; A família quando estiver reunida à hora do jantar, acenda uma vela de advento que se vai consumindo até ao natal. Quando a acende rezem juntos uma pequena oração onde termina por dizer: “Vem Senhor, habita a nossa família, entra em nossa casa e no nosso coração como entraste em casa de Zaqueu levando-lhe a alegria da salvação. Maranatha, vem Senhor Jesus.” A oração para cada semana da lectio pode também servir para ser rezada neste momento na família.
Que cada um encontre os gestos práticos para viver melhor o Advento. O importante é não ficar só nos bons pensamentos mas passar a pô-los em prática.

Oração
Senhor nosso Deus
Nós te damos graças pelo Dom da Tua Palavra
Porque nos permites ver a vida com outros olhos, com um olhar de esperança.
Porque te manifestas justamente quando estamos mais fragilizados
Porque nos renova o ânimo e nos levanta a cabeça em todas as nossas lutas e desilusões
Porque nos fazes acreditar que toda a História se encaminha para Ti
Porque continuas a nascer no nosso coração, em cada Natal, na figura de um menino
Que nos emociona, nos toca e nos faz de novo sonhar
Te pedimos a Graça de estarmos atentos aos sinais dos tempos
De Vigiarmos para que não se torne pesado o nosso coração
Para que o egoísmo, o individualismo não ocupe o lugar que foi e sempre será só Teu
E para que a nossa Oração a Ti, aumente a nossa intimidade contigo
E se transforme em vida e amor concreto para com os nossos irmãos.
Amém

Folha Paroquial nº 53 *Ano I* 25.11.2018 — DOMINGO XXXIV

«O Senhor é rei num trono de luz.»

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«EVANGELHO (Jo 18, 33b-37)
Naquele tempo, disse Pilatos a Jesus: «Tu és o rei dos Judeus?». Jesus respondeu-lhe: «É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?». Disse-Lhe Pilatos: «Porventura eu sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim. Que fizeste?». Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui». Disse-Lhe Pilatos: «Então, Tu és rei?». Jesus respondeu-lhe: «É como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».»

MEDITAÇÃO
Na festa de Cristo Rei, que coroa o ano litúrgico, contemplamos nosso Senhor Jesus Cristo, como o centro da história humana, Senhor do Universo e Rei de cada coração que o acolhe. A 1ª leitura diz-nos que «lhe foi entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram e que o seu reino jamais será destruído». A 2ª leitura diz-nos que Ele é o príncipe dos reis da terra, mas que a sua realeza foi conquistada, não pelas armas, mas pela força do amor. Ele libertou-nos do pecado pelo seu sangue derramado. A sua realeza foi-lhe dada pelo Pai que o exaltou à sua direita no céu, porque deu a vida pelos seus irmãos e fez deles um reino de sacerdotes para Deus seu Pai. Agora, sentado à sua direita, Ele, o Cordeiro imolado, recebe o mesmo louvor, veneração, honra e adoração que é devida «ao que está sentado no trono», isto é, a Deus Pai. Ele é o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim de toda a história, porque, como diz a carta aos Colossenses, foi n’Ele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra as visíveis e as invisíveis. Todas foram criadas por Ele e para Ele, pois Ele é anterior a todas as coisas e todas subsistem n’Ele. Em tudo Ele tem o primeiro lugar. Mas o espantoso é que o Evangelho nos mostre este Rei a ser julgado por homens, em tribunal humano, numa situação humilhante. O Rei fez-se servo, como canta o hino aos Filipenses, Ele, que era de condição divina, humilhou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso é que Deus o exaltou e lhe deu um nome acima de todo o nome». Ele próprio tinha dito: quem se humilha, será exaltado. O Dia de Cristo-Rei ajuda-nos a perceber a condição de discípulo de Cristo, pois este não é mais do que o mestre. Chamados a segui-lo em tudo, até à glória no céu, para estar com Ele, primeiro temos de aprender a ser servos da humanidade como Ele foi. E este é um dos belos atributos do discípulo: ser servo. A Igreja é uma comunidade de servidores a quem Jesus ensinou com toda a sua vida e que ficou plasmada no lavar dos pés aos discípulos no fim da última Ceia. «Vistes o que vos fiz?» – pergunta Jesus. Assim também vós deveis lavar os pés uns aos outros, dando-nos, assim, o mandamento do serviço intrinsecamente ligado ao Mandamento novo de «vos amardes uns aos outros, como Eu vos amei». Não são dois mandamentos, é um só. Servir amando e amando servindo. Paulo, que bebeu bem o Evangelho de Cristo, dirá mais tarde na Carta aos Gálatas: «pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros.» (Gal 5, 13). Por isso, este dia serve para nos questionarmos sobre a forma como servimos Cristo no seu Corpo eclesial e no mundo.
Apraz-me manifestar um profundo reconhecimento a todos aqueles que servem a Igreja nas nossas paróquias nos mais diversos campos. Ontem ao falar com uma genersoa paroquiana perguntei-lhe quantas aulas de matemática dava aqui na paróquia àqueles que não tendo dinheiro para pagar explicações recorrem à generosidade dos cristãos. E ela respondeu-me: De segunda a sexta, todos os dias. É assim que entramos na lógica da realeza de Jesus e participamos dela. Na paróquia há serviços mais visíveis outros menos visíveis para os homens, mas Deus não vê como o homem, tem um olhar mais penetrante.
Gostava de os citar a todos, mas ia ser longo. Prefiro dizer aos que ainda não têm qualquer serviço na vida da comunidade que há muito lugar para eles.
Qualquer comunidade cristã será mais resplandecente se for uma comunidade onde todos dão segundo os seus carismas e talentos. Obrigado às equipas Alpha que com paixãp anunciam o evangelho aos seus irmãos, obrigado aos catequesitas que com grande resiliência e amor acolhem em cada semana as crianças da catequese para lhes falar de Jesus. Como não agradecer aos responsáveis das células de evangelização, do escutismo, do ASJ e a todas as que enfeitam com beleza e amor a igreja para a celebraçãpo dominical. Não posso esquecer os que se dedicam aos pobres, as conferências vicentinas em S. José e o gasc em S. João Baptista. Obrigado aos membros dos Conselhos pastorais e económicos das equipas de animação fraterna, que ajudam a pensar a pastoral da paróquia e a tomar as decisões o mais acertadas possível. Comissão para a construção da igreja em S. João baptista e comissão de eventos. Como não estar grato aos membros dos coros que em várias missas animam a liturgia? Quantos ensaios, quanto trabalho e quanta beleza conseguem dar às celebrações? E podemos continuar com os ministros extraordinários da comunhão e todos os outros. Que Cristo Rei porque servo da humanidade nos ajude a fazer o caminho da humildade e do serviço que Ele fez e a Igreja possa ser reconehcida como a comundiade serva da humanidade à imagem do seu mestre. Mas precsiamos de muitos mais servidores. Ponham as vossas competências ao serviço de Deus e da Igreja… A messe é grande e os trabalhadores são tão poucos. Deus conta consigo.

Folha Paroquial nº 52 *Ano I* 18.11.2018 — DOMINGO XXXIII

«Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus.»

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«EVANGELHO (Mc 13, 24-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Naqueles dias, depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória. Ele mandará os Anjos, para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei a parábola da figueira: quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece: nem os Anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai».»

Sempre que os profetas do Antigo Testamento querem anunciar o Grande Dia de Deus, a sua vitória definitiva contra todas as forças do mal, encontramos a mesma linguagem, estas mesmas imagens, já presentes na 1ª leitura de hoje, do livro de Daniel. Nesta altura em que o profeta escreve, o povo de Israel vivia um dos tempos mais terríveis da sua história. Depois das conquistas de Alexandre Magno, e com a sua morte, a Palestina fica sob a ocupação grega. Alexandre foi bastante liberal com os povos ocupados, mas nesta época, cerca do ano 170 antes de Cristo, quem governava era um tal Antíoco Epifanes, de triste memória para o povo de Israel. Ele quer ser o verdadeiro Deus do povo e pretende ser adorado como tal. Todos os que não obedecem são torturados e mortos. Uma grande maioria cederá, mas outros resistem e morrem. Com esta mensagem que não podia ser dita senão de uma forma codificada e posta no futuro, Daniel diz-lhes: «Miguel, o chefe dos anjos, vela por vós… aparentemente, vós experimentais a derrota e o fracasso, a morte dos vossos melhores heróis, o horror… vedes a vitória dos que semeiam o mal e o terror. Mas, no final, vós sois os grandes vencedores! O combate dá-se na terra e no céu: vós só vedes o que se passa na terra, mas no céu, ficai a sabê-lo, os exércitos celestes já ganharam a vitória por vós.» E o povo percebia bem que esta mensagem era para eles, agora, no presente, em que as suas vidas se jogavam.
Também o evangelho de hoje é a Boa Nova da esperança, em linguagem apocalíptica. Era uma linguagem codificada: à primeira vista, trata-se do sol, das estrelas, da lua e tudo isso vai ser terrificante, mas, na realidade, trata-se de algo bem diferente! Trata-se da vitória de Deus e dos seus filhos no grande combate que travam contra o mal desde o princípio do mundo. Está aqui a especificidade da fé judaico-cristã. É por isso um contrassenso empregar a palavra Apocalipse a propósito de acontecimentos terríveis, pois na linguagem crente, judia ou cristã, é precisamente o contrário. A revelação do mistério de Deus não visa nunca causar terror aos homens, mas, ao contrário, permitir-lhes viver todas as revoluções da história «levantando o véu» para manter viva a esperança.
Será que esta esperança anunciada na 1ª leitura e no Evangelho poderá servir para nós hoje também? Olhando para a situação do mundo de hoje e mesmo para a situação da Igreja no Ocidente, em que não havendo perseguição física, há outro tipo de perseguição mais insidiosa e encoberta, estas leituras dizem-nos: Deus está connosco em todas as situações da história, sejam elas pessoais ou coletivas e tem sempre para nós uma Palavra em que nos revela o seu desígnio de amor para nós. E essa palavra realizar-se-á. Podem passar o Céu e a Terra, mas as minhas palavras não hão de passar, diz o Senhor.
Estamos na semana dos Seminários e sabemos que muitos deles tiveram que fechar por causa da falta de vocações. Alguns vêm isso como um sinal de que a Igreja e o cristianismo estão a definhar, pelo menos na Europa ocidental. Ainda por cima o escândalo que atravessou muitos países em relação a vários sacerdotes foi mais uma machadada forte na confiança na Igreja. Tudo isto pode levar muita gente a ter uma sensação de desânimo e até falta de fé. Mas Deus é maior que os nossos pecados e Ele sabe o combate espiritual em que estamos todos metidos. As perseguições e os sofrimentos da Igreja vêm de fora e de dentro mas os mais perigosos são quando vêm de dentro. E o demónio sabe que se conseguir que o escândalo e a perseguição venha de dentro obtém melhores resultados. O papa Francisco sabe discernir a presença misteriosa do mal e do tentador e por isso pede à Igreja que reze a S. Miguel Arcanjo para que Ele continue a estar ao nosso lado neste combate. Diz-nos a primeira leitura: “ Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus”.
A Igreja é do Senhor e Ele vela por ela. Deus ama-nos e nunca nos abandona ainda que aparentemente as coisas pareçam más e angustiantes. Mas Deus espera que nós saibamos aprender com tudo o que vivemos. Os momentos de crise foram sempre momentos de crescimento e de renovação. Eu acredito que os sofrimentos da Igreja no tempo presente estão já a ser tempos de purificação para que a Igreja entre numa nova e mais bela etapa de identificação com o seu Senhor. Como olho para os acontecimentos do mundo e para a vida da Igreja? Com esperança ou angústia? Acredito que Deus está connosco ou penso que estamos sozinhos nesta caminhada?

Folha Paroquial nº 50 *Ano I* 04.11.2018 — DOMINGO XXXI

«Eu Vos amo, Senhor: Vós sois a minha força.»

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«EVANGELHO (Mc 12, 28b-34)
Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?». Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-l’O.»

Meditação
Na 1ª leitura de hoje, está contida a oração que o judeu piedoso, ainda hoje, reza três vezes ao dia, e que tem por nome “Shema” por causa da palavra com que começa «Escuta». Trata-se de uma profissão de fé no Deus único que mantém com todo o povo e com cada um dos seus membros uma relação particular e pessoal. «O Senhor é o nosso Deus, o Senhor é único». Daqui nasce a exigência de corresponder a este sagrado vínculo com um amor indiviso. Todas as faculdades e as atividades do homem hão de estar orientadas integralmente para corresponder com amor ao Bem que é o Senhor, que é para nós e que age em nosso favor, querendo que sejamos felizes para sempre. Esta eleição gratuita por parte de Deus, é um dom imenso do qual o povo nunca deve perder a consciência: a memória contínua d’Ele, dos seus benefícios e dos seus preceitos é para todo o Israel – também para nós hoje, filhos de Abraão segundo a promessa – compromisso de uma vida conforme à sua vontade e fonte de toda a bênção.
No Evangelho, o escriba que se aproxima de Jesus faz uma pergunta muito pertinente. Entre tantos preceitos que a lei contém e cuja multiplicidade nos pode desorientar e tirar a esperança, precisamos de voltar a encontrar um centro de gravidade, um fio condutor para o caminho da vida. Jesus leva-o simplesmente àquele que unifica tudo, ao Uno, aquele que é (Yaveh) e envolve cada ser num abraço vivificante. Ele é o Amor e é o nosso Deus. Como, então, não nos oferecermos totalmente a Ele? A multiplicidade fica unificada pelo amor de Deus que pede todo o amor do homem, porque Ele nos amou primeiro. São muitos os nossos afetos, amizades, relações interpessoais; às vezes, sentimo-nos «triturados»…
“Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração”. Se lhe damos tudo, por outro lado, já o que vem d’Ele, será o Espírito de amor que virá a nós e amará em nós. São muitas, demasiadas, as coisas que temos que fazer, os compromissos a que temos que responder, as atividades que temos de levar por diante: Amemos o Senhor com todas as nossas forças e Ele será a força que nos sustenta na vertiginosa corrida da nossa vida quotidiana. Aliás, Ele mesmo nos segredará o que é essencial e a sermos capazes de deixar o acessório, a escolher a melhor parte. Se tendemos para esta única direção, seremos impulsionados pelo mesmo Senhor para a direção dos irmãos. O mandamento do Senhor é uno, mas tem dois aspetos, porque aprender a amar de todo o coração a Deus significa fazer-se próximo de cada homem. Aliás, o teste de verdade de que amamos realmente a Deus é o amor aos irmãos, de modo particular àqueles de quem não esperamos receber a recompensa. Foi assim que amou Jesus. “Sim, o amor vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios”.

Folha Paroquial nº 49 *Ano I* 28.10.2018 — DOMINGO XXX

«O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.»

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«EVANGELHO (Mc 10, 46-52)
Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.»

Bartimeu, curado, torna-se discípulo
Vejamos a situação em que está Bartimeu: «Estava um cego…a pedir esmola à beira do caminho». Era cego, era pobre, pedia esmola para sobreviver e estava sentado à beira do caminho, como um excluído. E como termina o encontro transformador com Jesus? Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. Agora vê, e deixa de estar sentado à beira do caminho para estar de pé, restituído na sua dignidade, e segue Jesus, isto é, tornou-se discípulo. O encontro com Jesus deu uma nova vida a este homem. Bastou para isso que Ele lhe abrisse o coração pela fé e suplicasse humildemente que o curasse. Mas fez dele logo um discípulo maduro e com uma vida bem estruturada pela fé no Senhor Jesus? O texto não responde a esta questão, nem precisa. Diz-nos apenas que ele deu início a um caminho de discipulado e o que provocou este desejo de ser discípulo foi o seu encontro transformador com Jesus. Sem este encontro não nasce sequer o desejo de ser discípulo. Volto a citar o papa Francisco no início da Evangelii Gaudium: “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria.”
É esta alegria que o cego agora experimenta que lhe dá a confiança de saber que seguir Jesus é a melhor escolha que pode fazer, pois só Jesus o salvou. Sabemos pelo que vimos ouvindo nestes últimos domingos, que o caminho do discipulado exige aceitar o repto da conversão, de aceitar a cruz, a disponibilidade para o serviço humilde. Sabemos que nos vai exigir fazer escolhas cada vez mais profundas do Senhor. Mas se passam os anos e não nos deixamos confrontar com as exigências do Evangelho e não aceitamos o caminho da conversão, ficamos cristãos queixosos, lamurientos, tristes e ressentidos como diz o papa com as palavras seguintes: “Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses: (…), já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.” (EG1)
Às vezes os momentos críticos na vida de uma comunidade, de um grupo ou de uma pessoa particular, são bons, porque nos ajudam a ver o que não está resolvido na fé. Quando tudo corre bem, o mar vai calmo, até parece que somos todos muito bons cristãos e discípulos, mas o carácter de uma pessoa conhece-se nos momentos mais dramáticos quando as seguranças em que fundamos a nossa vida são postas em risco. Jesus mostrou o seu carácter de filho de Deus quando, cheio de dores, quase a morrer e sem forças, na cruz, ainda consegue fazer uma oração cheia de perdão: «Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» O centurião ao vê-lo morrer exclamou: «Este homem é verdadeiramente o Filho de Deus.»
Quando um cristão, que parece que já serve com alegria, há tantos anos, o Senhor, se sente desrespeitado ou humilhado, fica tão irritado com os outros que é capaz de pôr tudo em causa, é porque não está arreigado e estruturado na Rocha firme que é o Senhor.
Claro que os cristãos são como as outras pessoas e podem sentir, com razão ou sem ela, que foram preteridos, que foram injustos com eles, que não os respeitaram. Os sentimentos que sentimos não os conseguimos evitar. Tantas vezes temos sentimentos que achamos que já não devíamos sentir: “Sentimentos de vingança, sentimentos de que fomos preteridos por outros e, no fundo, parece-nos que merecíamos mais e até temos vergonha de admitir para nós mesmos que ainda possamos sentir assim. Mas isso não quer dizer nada: Pois o importante não são os sentimentos que nos assaltam mas o que decidimos fazer com eles. O discípulo não pode levar-se pelos seus sentimentos mas pela decisão em agir como discípulo. E quando o faz, contrariando os seus sentimentos, sente então a paz do coração e a certeza interior de que escolheu bem, segundo Deus, e deu um passo em frente no discipulado. Quando uma pessoa com os sentimentos feridos, apesar disso, escolhe amar, servir e caminhar em frente porque o que quer é ser fiel ao Senhor, então está no caminho de discípulo. Claro que é dever de uma comunidade fazer com que todos se sintam bem e evitar por tudo gerar mal- estar, mas com o passar do tempo pode acontecer que alguns se encostem tanto aos seus pergaminhos do “foi sempre assim”, já “há tantos anos que aqui estamos” que toda e qualquer mudança não é bem-vinda porque parece pôr em risco a nossa segurança e apego àquilo que considero o meu mundo. E aí torna-se difícil evitar algumas colisões. Com elas alguns crescem, outros não avançam e ficam na sua revolta e azedume.
O Papa Francisco é bem claro no seu sonho para a Igreja: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo” na Igreja para “chegar a todos”.
Era interessante que, uns anos mais tarde, Bartimeu nos contasse como foi o seu caminho de discípulo. As crises porque teve de passar e como as ultrapassou. Terá ele ficado pelo caminho como o homem rico que tinha muitos bens? Ou soube aproveitar a crise e o sofrimento que elas trazem para avançar no caminho agora mais amadurecido pela humildade e pela escolha radical da missão que o Senhor lhe confia?
Dá-nos Senhor a alegria de nos sentirmos a caminho contigo, aprendendo com o teu coração manso e humilde.